Uma Boa Leitura  

Nos Poços, por Caio Fernando Abreu

 

Primeiro você cai num poço.

Mas não é ruim cair num poço assim de repente?

No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim?

A gente não sente medo?

A gente sente um pouco de medo mas não dói.

A gente não morre?

A gente morre um pouco em cada poço.

E não dói?

Morrer não dói. Morrer é entrar noutra.

E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

Uma Boa Leitura  

Idealismo, por Augusto dos Anjos

Um belo poema, para desejar uma ótima semana a todos os desordeiros. :)

por Augusto dos Anjos

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
– Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

 

Uma Boa Leitura  

Um Sorriso, por Manuel Bandeira

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.

A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
– Foi então que senti sorrir o meu desgosto…

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…

Uma Boa Leitura  

Compensação…

Por Cecília Meireles

(…)
Esta ignorância humana.
Este silêncio do universo.
A sabedoria.
Hoje eu queria estar entre as nuvens, na velocidade das nuvens, na sua fragilidade, na sua docilidade de ser e deixar de ser.
Livremente.
Sem interesse próprio.
Confiante.
À mercê da vida.
Sem nenhum sonho de durarem até o ano 2000, de terem emprego público, férias, abono de Natal, montepio, prêmio de loteria, discurso à beira do túmulo, nome em placa de rua, busto no jardim…
(Ó nuvens prodigiosas, criaturas efêmeras que estais tão alto e não pretendeis nada, e sois capazes de obscurecer o sol e de fazer frutificar a terra, e não tendes vaidade nenhuma nem apego a esses ocasos!)
Hoje eu queria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, pelas nuvens, para as nuvens…